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O Atraso das Ciências Humanas no Brasil – Psicanálise

Sigmund Freud, founder of psychoanalysis, smok...

Dando continuidade ao post da semana passada, aqui vai a primeira parte da minha resposta.

Psicanálise

Particularmente popular entre psicólogos, a psicanálise também pode ser encontrada em várias outras ciências sociais tanto na versão original quanto nos sabores Jung, Melanie Klein, Lacan, Erich Fromm e muitos outros. Criada exclusivamente por Sigmund Freud, a psicanálise começou como uma teoria promissora que eventualmente explicaria os transtornos mentais com base em certos traumas experienciados durante a infância. Porém logo de cara Freud resolveu tomar o caminho pseudocientífico. Quando ficou evidente que muitos casos de histeria não eram precedidos de abusos sexuais na infância, ele decidiu que o importante não era a existência real do abuso e sim de fantasias de natureza sexual pelo paciente. Dessa forma, o que antes era passível de verificação (ou o paciente foi abusado ou não) agora tinha se tornado, nas palavras de Karl Popper, não-falsificável (o paciente pode ou não ter fantasiado mas não tem como ter certeza, a interpretação do psicanalista é o que conta). Baseado não em evidências experimentais mas simplesmente na observação de um punhado de pacientes, Freud postulou todo um universo psíquico habitado por entidades bizarras (ego, superego, id) e regido por supostos mecanismos de defesa (repressão, sublimação, negação, etc). Tanto Freud quanto seus seguidores passaram a explicar não só transtornos mentais mas também o desenvolvimento, pensamento e emoções normais. Tudo é definido de maneira convenientemente vaga e as conclusões sempre impossíveis de serem falsificadas. Tome por exemplo o complexo de Édipo, a teoria de que todo menino passa por uma fase onde ele fantasia poder matar o pai e pegar a mãe e que, de acordo com Freud, é um dos marcos mais importantes do desenvolvimento mental masculino. Quando pressionados por evidências, psicanalistas citam exemplos do comportamento de um ou outro menino nessa idade que, segundo eles, bastaria pra demonstrar a validade de tal complexo. Mas isso não passa de evidência anedota; é necessário um experimento investigando, por exemplo, se há diferenças significativas entre as freqüências de comportamentos agressivos direcionados ao pai e a mãe. Frente a tal proposta psicanalistas imediatamente sacudiriam a cabeça em reprovação: a criança pode reprimir seus desejos de assassinar o pai, o que impediria qualquer comportamento agressivo de se manifestar. Argumentos similares são empregados para desqualificar toda e qualquer tentativa de testar a psicanálise cientificamente. Cada conceito psicanalítico se apóia em outro conceito psicanalítico e assim por diante até chegar a um ou outro postulado cuja verdade não há como verificar — devem ser aceitos puramente pela fé no profeta Freud.

A psicanálise pode ter falhado como teoria científica da mente humana mas e quanto a psicanálise como terapia? Essa sim é passível de verificação e muitos experimentos já foram realizados. Até hoje não foram encontradas evidências sólidas de que ela é mais eficaz que outras terapias. De fato, existem evidências de que, com a possível exceção de intervenções cognitivo-comportamentais em fobias, todas as terapias faladas (talk therapies) produzem praticamente o mesmo efeito e que esse efeito se assemelha em muito ao efeito placebo.

Recentemente alguns neurocientistas vêm tentando dar origem a um movimento neopsicanalítico, dessa vez com a intenção de validar alguns conceitos freudianos através da neurociência. Ao meu ver, essa é uma promessa enganosa. Como vimos, conceitos freudianos foram definidos de maneira a ser não-falsificáveis. Contudo, é possível redefinir alguns deles para que se tornem falsificáveis. Por exemplo, repressão pode ser definida simplesmente como o processo pelo qual  o cérebro elimina memórias de conteúdo emocionalmente negativo, o que até encontra certa evidência em alguns estudos. No entanto esse novo conceito de repressão é apenas uma vaga lembrança do mecanismo de defesa freudiano pelo qual fantasias carregadas de conteúdo sexual são retiradas do consciente e aprisionadas no inconsciente onde permanecem até retornar ao consciente como sintomas neuróticos, atos falhos e sonhos. Portanto, se algo da psicanálise for validado cientificamente será em uma versão tão diferente da original quanto a teoria atômica atual difere do atomismo grego.

O sucesso da psicanálise nos cursos de humanas no Brasil esconde ainda uma grande ironia. Sociólogos, antropólogos e psicólogos frequentemente nos lembram, quase sempre com razão, o quanto nossa sociedade é preconceituosa e machista. No entanto, na medida em que os mesmos defendem as idéias pseudocientíficas de um austríaco que viveu 100 anos atrás, eles acabam dando seu próprio apoio aos vários machismos e preconceitos vitorianos contidos na psicanálise. Ou será que ‘inveja do pênis’ é realmente parte da condição feminina?

Conclusão

Como teoria da mente humana a psicanálise não passa de pseudociência. Como psicoterapia não é possível afirmar que ela seja mais eficaz que as outras psicoterapias existentes e há evidências que seus efeitos não passam de placebo. O que as ciências humanas precisam é de uma base experimental sólida e de um raciocínio baseado em evidências, e não de teorias pseudocientíficas ou de gurus com pretensões proféticas.

Em breve: outra razão pro atraso das ciências humanas no Brasil. Enquanto isso, gostaria de ouvir comentários dos estudantes e professores de humanas. Como é a situação onde você estuda/leciona? Que tipo de problemas encontra? Quais são os mal-entendidos mais comuns?

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