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O que é a Dianética?

The volcano and fireball on the cover of Diane...

Capa da versão em inglês de Dianética (Photo credit: Wikipedia)

Em 1950 o escritor de ficção científica Lafayette Ronald Hubbard publica o livro Dianética: a moderna ciência da saúde mental (exceto quando indicado, todas as citações a seguir são deste livro). Sem qualquer qualificação em pesquisa científica, Hubbard acredita ter feito uma série de descobertas (“mais importantes que a roda e o fogo” exalta a contracapa) sobre o funcionamento da mente humana. De acordo com a sinopse a Dianética é “muito mais simples do que a física ou a química, se compara com elas na exatidão dos seus axiomas e está em um escalão consideravelmente maior de utilidade.” Afirmações bombásticas e contraditórias aos fatos (a física e química não contém axiomas) abundam: “a fonte escondida de todas mazelas psicossomáticas e aberrações humanas foi descoberta e técnicas foram desenvolvidas para uma infalível cura.”

Apesar das repetidas alegações de que testes e experimentos foram realizados provando definitivamente as conclusões da Dianética, o livro não contém demonstrações matemáticas, descrições de experimentos científicos ou resultados obtidos por outros pesquisadores. A única e exclusiva fonte é a mente do autor. Este afirma que descobriu os axiomas básicos da Dianética em 1938 e que passou os 12 anos até a publicação dedicando-se a pesquisa. Porém “muitos dos seus amigos insistem contudo que esses 12 anos de pesquisa são inteiramente míticos e que não foi antes de 1948 que a Dianética eclodiu” (Gardner, 1957).

Engramas por todo lado

Em que consiste então a Dianética? Ela fundamenta-se basicamente no conceito de engrama “a única fonte de doenças mentais inorgânicas e doenças psicossomáticas orgânicas”. Engramas são gravações, distintas da memória, que recordam de maneira exata todos os estímulos vinculados a situações estressoras. Engramas são o resultado da ação da mente reativa, definida como sendo a parte inconsciente mas sempre alerta da mente humana. Ao contrário da mente consciente (batizada de mente analítica por Hubbard e dita análoga a um computador) a mente reativa é um imbecil, não pensa e nem age racionalmente, ela se limita a gravar e usar as gravações para produzir ações. Mesmo depois de criados, engramas só se tornam um problema se forem digitados; o que faz um engrama ser digitado varia mas geralmente uma situação estressora semelhante a original é suficiente. Uma vez gravado e digitado um engrama pode ser reativado por qualquer estímulo externo semelhante aos que ele contém e causar todo tipo de inconveniência: “ele desliga a mente consciente em maior ou menor grau, assume os controles motores do corpo e causa comportamentos e ações que a mente consciente, o próprio indivíduo, jamais consentiria.”

Hubbard fornece o seguinte exemplo de gravação engrâmica: “Uma mulher é derrubada por um golpe. Ela fica ‘inconsciente.’ Ela é agredida e chamada de falsa, que ela não presta, que está sempre mudando de ideia. Uma cadeira cai no processo. Uma torneira está aberta na cozinha. Um carro passa na rua lá fora. O engrama contém uma gravação de todas essas percepções: visões, sons, tácteis, gostos, odores, sensações orgânicas, sensações cinéticas, posição das juntas, sede, etc. O engrama consistiria de todas as afirmações feitas a ela quando estava ‘inconsciente’: os tons de voz e emoções na voz, o som e sensação do golpe original e seguintes, a sensação táctil do chão, talvez o gosto de sangue na sua boca ou qualquer outro gosto presente, o odor da pessoa que a ataca e os odores do ambiente, o som do motor e pneus do carro passando lá fora, etc.”

Hubbard realizando medições científicas

Hubbard realizando medições científicas

Esta é, em resumo, toda teoria Dianética. Há capítulos intitulados “o objetivo do homem”, “as quatro dinâmicas”, “a mente analítica e os bancos de memória padrão”, “os ‘demônios’”, “contágio das aberrações”, “digitando o engrama” entre outros mas praticamente tudo depende dos engramas e da influência destes no organismo. A partir destes elementos, Hubbard tenta explicar a origem de todas as doenças mentais assim como de muitas outras não normalmente associadas a mente como resfriados, artrite, alergias, problemas nos olhos e tuberculose. Hubbard nos informa que há razões para crer que o câncer e a diabete também são causados por engramas mas tem o cuidado de advertir que isso é apenas teoria e que os devidos experimentos ainda não foram realizados. Essa não seria contudo uma tarefa difícil pois como veremos a seguir, usando a metodologia Hubbardiana é possível demonstrar que todas as doenças têm origem em ou são agravadas por engramas.

Engramas aparentemente exercem grande influência sobre a fisiologia humana. O efeito é ainda mais abrangente, ou assim diz a teoria, se informações verbais estiverem gravadas pois estas serão interpretadas pela (estúpida) mente reativa. Mas isso não é tudo. Hubbard revela outra descoberta revolucionária: engramas podem ser gravados antes mesmo do nascimento. “Onde houverem células humanas,” afirma, “há engramas em potencial.” Questões claramente urgentes como ‘qual seria o correlato fisiológico do engrama?’ ou ‘como poderia uma célula zigótica desprovida de receptores gravar qualquer estímulo externo?’ são convenientemente ignoradas. A vida no útero revela-se muito perigosa: “Mamãe espirra, bebê fica ‘inconsciente’. Mamãe corre leve e alegremente contra a mesa e bebê amassa sua cabeça. […] Mamãe fica histérica, bebê forma um engrama. Papai bate na mamãe, bebê forma um engrama.” O maior de todos os perigos intrauterinos são as tentativas de aborto: “uma grande proporção de crianças supostamente débeis mentais são realmente casos de tentativas de aborto cujos engramas colocam-nas no medo-paralisia ou paralisia regressiva e as comandam a não crescer, mas a estar onde estão para sempre”.

O seguinte exemplo ilustra como um engrama pré-natal pode causar problemas mais tarde: “engrama 105, digamos, foi um momento de ‘inconsciência’ quando o feto foi nocauteado via mãe, pelo pai. O pai, ciente ou não da criança, exclama ‘sua puta suja desgraçada; você não presta!’ Esse engrama […] pode jazer lá por setenta anos e nunca ser digitado. Contém uma dor de cabeça e uma queda, e o ranger dos dentes e ruídos intestinais da mãe. […] Um dia, contudo, o pai fica angustiado com a criança. A criança está cansada e febril, o que quer dizer que sua mente analítica pode não estar desempenhando bem. […] E o pai esbofeteia a criança e diz ‘seu desgraçado; você não presta!’ A criança chora. Aquela noite ela tem uma dor de cabeça e está muito pior fisicamente. E ela sente um intenso ódio e medo do seu pai. O engrama foi digitado.”

Tratamento eficaz?

A “infalível cura” encontra-se na terapia Dianética. O objetivo desta é “produzir um Liberto [Release] ou um Limpo [Clear].” O Liberto é o indivíduo que se encontra no meio do processo de cura e não tem mais estresses e ansiedades. Já o Limpo foi completamente curado e tornou-se quase um super-homem. Sua memória agora é fotográfica, seu raciocínio é rápido, ele é física e moralmente superior. Indivíduos incríveis assim destacariam-se facilmente. Se a terapia Dianética consegue atingir tal prodígio onde estariam os Limpos? Um deles foi apresentado por Hubbard em frente a uma grande audiência em Los Angeles em 1950. Era uma moça chamada Sonya Bianca, uma Limpa que supostamente atingira uma memória perfeita. Gardner (1957) relata o evento: “na demonstração que se seguiu, contudo, ela falhou em lembrar sequer uma fórmula de física (a graduação que ela estava cursando) ou a cor da gravata de Hubbard quando este virou as costas. Nesse momento uma grande parte da audiência levantou e deixou o evento. Hubbard mais tarde produziu uma explicação Dianética elegante para o fiasco. Ele tinha chamado-a para o palco dizendo ‘Pode vir aqui agora, Sonya?’ O ‘agora’ deixou-a presa no momento presente.” Até hoje não há registros da existência de Limpos.

Sessão de auditoria com um e-meter

Sessão de auditoria com um e-meter

O processo terapêutico é chamado de Auditoria e o papel de quem o pratica, o Auditor, é remover os engramas. Isso só é possível travando-se uma espécie de guerra com o engrama. Primeiro é necessário fazer o paciente regredir na sua linha do tempo até encontrar uma situação que o auditor identifique como um possível engrama. O auditor pode pedir que o paciente repita várias vezes essa situação. Atacado, o engrama revida de maneira emocional; o paciente tende a praguejar, chorar e barganhar. Finalmente atinge-se o momento primário de dor ou inconsciência na vida do paciente, chamado de básico-básico.  Nesse momento o engrama desaparece e o paciente experimenta grande alívio e felicidade.

Um dos ramos da Dianética é a Dianética preventiva. Mulheres grávidas são as que devem ter o maior cuidado: “Se ela cair, deve ser ajudada – mas silenciosamente. Ela não deve carregar peso. E não deve ser forçada ao coito. Pois cada experiência de coito causa um engrama na criança durante a gravidez.” O parto deve ser feito sob pouca luz e em absoluto silêncio. “E silêncio não quer dizer uma barragem de ‘Sh’s’ pois estes causam gagueira.” Durante a vida pós-natal, silêncio completo também deve ser observado durante cirurgias ou qualquer outra situação em que o indivíduo se machuque ou esteja inconsciente.

No capítulo final, intitulado “Dianética no século 21”, os seguidores de Hubbard apresentam a história oficial do movimento. Repleta de exaltações ao líder e seus feitos incríveis, um deles é particularmente digno de nota: “dentro de dois anos da autoria deste livro que você segura em suas mãos, L. Ron Hubbard tornou-se o primeiro a isolar cientificamente e identificar o espírito humano.” Chave para esta descoberta está o instrumento conhecido como e-meter. Apesar de originalmente ter sido inventado pelo quiropraxista Volney Mathison nos anos 1940, o nome na patente é o de Hubbard. Segundo Ronald, filho de Hubbard: “meu pai obteve os direitos do e-meter em 1952 de Volney Mathison da mesma maneira que obtém todas as coisas – através de fraude e coerção” (Carroll, n.d.). Trata-se de uma versão extremamente simplificada de um medidor da resistência elétrica da pele. Hubbard e seus seguidores porém acreditam que o e-meter mede os efeitos de uma energia humana desconhecida associada ao espírito. Com essa descoberta Hubbard eleva-se ao status de líder espiritual e funda a religião conhecida como Cientologia, da qual a Dianética é agora uma doutrina.

Um dos templos da Cientologia em Los Angeles, USA

Um dos templos da Cientologia em Los Angeles, USA

A originalidade da Dianética

É impossível ler as elucubrações de Hubbard sem deixar de notar a influência de outro clássico exemplo de pseudociência: a Psicanálise. Há várias semelhanças, vejamos:

Psicanálise

Experiências infantis emocionalmente traumáticas seriam reprimidas e armazenadas no inconsciente. Ao longo da vida esses traumas poderiam ressurgir de maneira distorcida causando os transtornos mentais. Freud acreditava que poderia identificar estes eventos traumáticos infantis dialogando com o paciente e interpretando seus relatos e sonhos (análise). Uma vez identificados e re-elaborados estes traumas desapareceriam e o paciente melhoraria.

Dianética

Experiências pré e pós-natais, física e emocionalmente traumáticas são gravadas em engramas na mente reativa. Ao longo da vida esses engramas poderiam ser ativados e seu conteúdo, distorcido pela mente reativa, causaria transtornos psicossomáticos. Hubbard acreditava que poderia identificar estes engramas dialogando com o paciente e interpretando seus relatos (auditoria). Uma vez identificados e repetidos, os engramas desapareceriam e o paciente melhoraria.

As famosas interpretações freudianas eram, no linguajar de Karl Popper, infalsificáveis pois não havia experimento possível que pudesse testá-las. O mesmo ocorre com as hubbardianas; basta encontrar uma interpretação adequada e todos os problemas podem ser atribuídos a engramas. Além disso, assim como Freud, Hubbard criou uma teoria completamente desconectada do conhecimento científico da época, outra característica típica de uma pseudociência. A Dianética, com seu repertório próprio de conceitos e nomes, é fechada em si mesma e ignora (várias vezes até contradiz) quase tudo que já se conhecia em psicologia e neurociência em 1950.

Movimentos como esses tendem a seguir um de dois caminhos possíveis: 1) após a exaltação inicial, seus seguidores se desiludem, vão aos poucos desaparecendo e o movimento finalmente morre; ou 2) frente as críticas o movimento se fecha ainda mais até chegar no limite máximo da infalsificabilidade, tornando-se uma religião.

Segunda parte do post “A Cientologia e a Pseudocientificidade da Dianética” escrito em colaboração com Octavio Botelho e  publicado no Observador Crítico das Religiões.

Referências

Carroll, R. T. (n.d.). Dianetics – Scientology – The Skeptic’s Dictionary – Skepdic.com. skepdic.com. Retrieved June 25, 2013, from http://www.skepdic.com/dianetic.html

Gardner, M. (1957). Fads and Fallacies in the Name of Science. Dover Publications.

La Fayette Ron Hubbard. (1956). Dianetics: The Modern Science of Mental Health. Bridge Publications, Inc.

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