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Mente, cérebro … e alma?

O espiritismo é uma religião diferente das outras por afirmar, desde sua fundação, que suas alegações podem ser confirmadas cientificamente. Mas, como em todas as outras religiões, o fato que estas alegações são repetidamente desprovadas não abala em nada a fé dos seus seguidores. Eles simplesmente fazem novas alegações ou distorcem a realidade para que  se encaixe nas suas crenças. Esse processo interminável de auto-confirmação eventualmente produz distorções tão sofisticadas que chegam a ser interessantes. Um bom exemplo é Alexander Moreira de Almeida.

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Demonstração da existência de espíritos. Farsa cômica, foi endossada pelo líder espírita Chico Xavier. A própria médium envolvida acabou confessando mas a crença no espiritismo segue forte, agora também no sofisticado mundo acadêmico.

Professor de Psiquiatria na Universidade Federal de Juíz de Fora, apresenta-se como um investigador imparcial e desinteressado. Até o nome do seu grupo, o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, parece inocente o suficiente – espiritualidade não tem necessariamente conotação religiosa. Porém seus tópicos preferidos são quase sempre temas vinculados ao espiritismo. Suas investigações (a maioria publlicadas na Revista de Psiquiatria Clínica onde ele também faz parte do corpo editorial) apresentam uma conveniente tendência em favor das alegações espíritas. Em 2012, um de seus estudos conseguiu atrair a atenção da blogosfera cética internacional, por sugerir que as imagens cerebrais de médiuns durante psicografia eram consistentes com a hipótese de que eles realmente estavam canalizando espíritos.

Eu poderia discorrer sobre a questionável presença desta tão evidente propaganda pró-religiosa em uma universidade federal e o consequente desperdício de dinheiro público, mas não vou. Ao invés disso, vejamos este belo e sofisticado exemplo de sua capacidade de distorção:

Proferida durante um encontro da Associação Médico-Espírita de São Paulo, uma organização que tem como objetivo promover

[…] estudos e pesquisas que comprovem o Paradigma Espírita – entre outros princípios, a sobrevivência da alma, a comunicabilidade entre espíritos, a reencarnação, a constituição do ser humano em corpo físico, corpos sutis e espírito – demonstrando sua contribuição para o progresso da Ciência e da Medicina como um todo, dada a importância de que se revestem, evidenciando o caráter bio-psico-sócio-espiritual de cada individualidade.

A palestra condensa tantas distorções que levaria até minha terceira encarnação para desfazer. Vejamos só os primeiros 7 minutos. Tudo começa com Alexander anunciando que irá falar sobre as barreiras ao avanço das pesquisas em espiritualidade. Segundo ele, a primeira destas barreiras é o “cientificismo materialista”, isto é, a ideia de que “o universo é composto apenas de matéria”, “que toda e qualquer explicação deve necessariamente ser reduzida a aspectos materiais” e que “a ciência demonstrou que só existe matéria no universo”. Outro grande equívoco, segundo ele, é afirmar que “é um fato científico que o cérebro gera a mente, a neurociência prova que o cérebro gera a mente, que é o cérebro que decide”. Ele dedica os próximos minutos a explicar que, apesar da grande prevalência destas ideias entre cientistas e profissionais da saúde, elas são apenas pressupostos metafísicos e não resultados apoiados em evidências, e que é portanto perfeitamente válido basear-se em pressupostos diferentes (ex. existe algo além de matéria no universo, mente e consciência são imateriais/espirituais) e ver até onde eles nos levam.

Caso não seja imediatamente óbvio que esta não é uma descrição justa do consenso científico atual, será necessário fazermos um pequeno detour pelo estranho porém fascinante campo da filosofia da mente. Grande parte da opinião popular sobre mente e cérebro é herança das ideias de René Descartes:

No século XVII, Descartes e Galileu fizeram uma distinção precisa entre a realidade física descrita pela ciência e a realidade mental da alma, considerada por eles como estando fora do escopo da pesquisa científica. Este dualismo entre a mente consciente e a matéria inconsciente foi útil para a pesquisa científica da época, até porque ajudou a afastar a autoridade dos religiosos sobre os cientistas e porque o mundo físico poderia ser matematicamente tratado de uma forma na qual a mente não parecia se prestar (Searle, 1998).

Descartes acreditava que o corpo (incluindo o cérebro) era como uma máquina, extremamente complexa mas perfeitamente mecânica, e que quem ditava as ordens era a alma imaterial, que se comunicava com o corpo por via da glândula pineal. Hoje em dia esse “dualismo cartesiano não é levado muito a sério por nenhuma corrente principal nem da neurociência nem da filosofia” (Churchland e Sejnowsy, 1992). Ora bolas, e por que não? O que há de errado nisso? Não seria puro preconceito ideológico excluir uma hipótese que parece tão boa quanto as outras? Seria, mas o caso é que esta hipótese, levantada 400 anos atrás, já não parece mais tão boa assim:

No estado atual de evolução da ciência, parece altamente provável que processos psicológicos são de fato processos do cérebro físico, não, como Descartes concluiu, processos de uma alma ou mente não-física. […] É suficiente observar que a hipótese Cartesiana falha em ser coerente com o estado atual do conhecimento em física, química, biologia evolutiva, biologia molecular, embriologia, imunologia, e neurociência (Churchland e Sejnowsky, 1992).

OK, tudo bem que essa história de alma não encontrou muito suporte em evidências, mas precisa ignorar completamente? Não, mas assim como teoricamente não ignoramos completamente a possibilidade da existência do Pé-grande, na prática as evidências são tão minúsculas que quase ninguém leva isso a sério.

Para ser exato, o materialismo não é um fato estabelecido, da mesma maneira que a estrutura helicoidal de quatro bases do DNA, por exemplo, é um fato estabelecido. É possível, portanto, que a despeito das evidências atuais, o dualismo possa ser verdadeiro. Apesar da remota possibilidade que novas descobertas venham a sustentar Descartes, o materialismo, como a evolução Darwiniana, é a mais provável hipótese de trabalho (Churchland e Sejnowsky, 1992).

Mas tal dualismo se tornou um obstáculo para o século XX, já que parece situar a consciência e outros fenômenos mentais fora do mundo físico ordinário e, por conseguinte, fora do domínio da ciência natural. No meu ponto de vista, temos de abandonar o dualismo e começar do pressuposto de que a consciência é um fenômeno biológico trivial comparável ao crescimento, à digestão ou à secreção da bílis (Searle, 1998).

Esta nova ciência da mente baseia-se no princípio de que a nossa mente e o nosso cérebro são inseparáveis. O cérebro é um órgão biológico complexo que possui imensa capacidade computacional: constrói a nossa experiência sensorial, regula nossos pensamentos e emoções, e controla as nossas ações. É responsável não só por comportamentos motores relativamente simples como correr e comer, mas também por atos complexos que consideramos essencialmente humanos, como pensar, falar e criar obras de arte. Visto desta perspectiva, nossa mente é um conjunto de operações realizadas pelo nosso cérebro (Eric Kandel).

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“Estou caminhando lá fora ao sol!!” Hipótese da Matrix ou cérebro em uma jarra.

É evidente, portanto, que tanto cientistas quanto filósofos não afirmam categoricamente que o materialismo é um fato completamente estabelecido. Por outro lado, a neurociência vem cada vez mais acumulando evidências de que é o cérebro que causa a mente ou de que a mente emerge do cérebro, tornando o conceito de alma supérfluo. Mesmo entre as posições mais controversas em filosofia da mente, é muito difícil encontrar alguém que descarte o cérebro como causa da mente, e que sustente em lugar a existência da alma. Roger Penrose, famoso pelo seu argumento contra a possibilidade do desenvolvimento de máquinas realmente inteligentes, se distancia de posições não-materiais: “Estou de preferência sugerindo que não existem flutuando por aí objetos mentais que não se baseiam na fisicalidade” (Penrose, 1997). David Chalmers é um filósofo que explora seriamente a hipótese da Matrix, ou seja, que estaríamos vivendo em uma gigantesca simulação computacional. Embora nesta situação o cérebro seja irrelevante, a mente ainda assim não teria nada que ver com alma ou espírito, e sim com o computador ultra-avançado onde nossa simulação estaria rodando. Há contudo o caso do falecido neurobiólogo John Eccles, que sustentava algo parecido com o dualismo cartesiano e acreditava que “Deus incorpora a alma ao feto em gestação na idade de três semanas” (Searle, 1998).

Além das evidências em contrário e da falta de coerência com o resto do conhecimento científico estabelecido, há também muitos problemas com o conceito de alma. QualiaSoup faz uma análise audio-visual detalhada desses problemas, logo não vou repetí-la, mas considere por um momento estas questões que ele levanta: Por que uma entidade imaterial (alma) poderia pensar e o cérebro não? De que maneira algo imaterial pode se relacionar com a matéria? Como poderia algo sem qualquer parte física até mesmo existir?

Suspeito fortemente que Alexander continuará distorcendo os fatos com suas tentativas de comprovação do espiritismo. Só nos resta esperar que suas próximas distorções sejam ainda mais elaboradas que essa. Assim pelo menos nunca faltarão tópicos na nossa pauta cética.

Referências

O Mistério da Consciência. John R. Searle, 1998.

The Computational Brain. Patricia Churchland, Terrence Sejnowsky, 1992.

O Grande, o Pequeno e a Mente Humana. Roger Penrose, 1997.

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10 thoughts on “Mente, cérebro … e alma?

  1. Dr. Nicolas P. R. Ramaux says:

    Gostei muito desse texto. Parabéns.

    Acho que mais precisamente que a “mente”, são os fenômenos da consciência, das emoções, e também os mecanismos mentais inconscientes que estão aqui em pauta. Para todos esses mecanismos cognitivos, as neurociências e a psicologia científica (entre outras disciplinas) acumulam cada vez mais conhecimentos (comprovados, testáveis, reproduzíveis, etc.). E todo esse saber é produzido sem postular em nenhuma alma, mas sim aplicando um método científico que podemos chamar de “materialismo científico”. Quais outros conhecimentos objetivos foram produzidos por outras abordagens? Nenhum!
    Agora, é preciso explicar bem o que é esse “materialismo científico” para se precaver de distorções desonestas que reduzem isso a um “cientismo” para o qual somente existiria matéria, etc como você ilustrou bem nesse texto… Acho que vou escrever meu próximo post sobre o materialismo científico!

    Abraço.

  2. André, gostei bastante do texto.
    Uma vez folheei um livro espírita e tinha uma figura de um ímã com o campo magnético ao lado de ser humano e um possível campo espiritual. Era quase uma relação direta do tipo Se X é verdade então Y também é. Argumento lógico bem falho.

    Gostaria de acrescentar um ponto que considero interessante:
    – Resumo de ciência: Método de experimentação do mundo que procura explicações físicas para fenômenos físicos.
    – Resumo de religião: Método de experimentação do mundo que procura explicações não-físicas para fenômenos físicos.

    Assim a diferença entre ciência e religião é basicamente uma diferença de crença.

    Quando você diz que:
    ” neurociência vem cada vez mais acumulando evidências de que é o cérebro que causa a mente ou de que a mente emerge do cérebro, tornando o conceito de alma supérfluo”

    Você parte da crença que:
    “Esta nova ciência da mente baseia-se no princípio de que a nossa mente e o nosso cérebro são inseparáveis. O cérebro é um órgão biológico complexo que possui imensa capacidade computacional: constrói a nossa experiência sensorial, regula nossos pensamentos e emoções, e controla as nossas ações.”

    Contudo quando alguém da religião diz que mente e cérebro são coisas distintas ele fala isso com base em outras crenças. Não estou aqui para julgar as crenças. apenas para dizer que as crenças que utilizamos vão necessariamente conduzir a resultados dentro da nossa crença.

    Novamente, não quero defender o pressuposto religioso, muito menos suas conclusões. Apenas estou tentando expor que a pesquisa científica não é isenta de tendências e limitações. É que nem jornal: Não existe notícia que não seja tendenciosa, o próprio fato do autor escrever já influencia o texto, que fica impregnado das crenças advindas do autor. Jornalistas bons poem menos, outro mais.Mas o jornalismo sempre terá suas limitações, sempre será uma representação da realidade.

    O que acha disso tudo?

    Seguimos conversando.

    Forte abraço!

  3. Oi John, esse visão das coisas é basicamente o que prega o relativismo no campo da epistemologia. Eu não concordo com essa posição. A verdade é só uma. A ciência é o único método que conhecemos de se aproximar da verdade. E isso não é preconceito contra a religião ou qualquer outro método, pois se o método religioso conseguisse de fato alcançar alguma verdade, a ciência o incorporaria entre seus métodos com todo prazer. Mas não consegue.

  4. Isis Cavalcante says:

    Gostaria de deixar meu recado aqui… O respeito é moral de qualquer ser humano. E esse vínculo moral não está sendo exercido no texto acima. Distorção ou não, suas palavras já cometem um grande equívoco quando dizem que o espiritismo é uma religião. O espiritismo na verdade, é uma doutrina. Doutrina essa que tem seus estudos apoiados sim em comprovações científicas de fé e de energia. Porém, não estou aqui para discutir isso, afinal o senhor tem a sua opinião e é meu dever respeitá-la. Gostaria de pedir encarecidamente que tenha embasamento sobre essa doutrina, para então argumentar sobre a mesma.

  5. Isis Cavalcante, o espiritismo pode ser considerado doutrina sim, mas não acho que isso mude coisa alguma. Porém apoiado em comprovações científicas o espiritismo certamente não é. Fé é justamente o oposto. Fé é acreditar em algo SEM evidências.

  6. Carol says:

    Excelente texto. Percebo que apesar de todo o arcabouço teórico desenvolvido pela ciência, o novo (ok, não é tão novo assim) desafio é a compreensão que fé e suas concepções e o saber científico não se misturam. Vou continuar acompanhando o blog. 🙂

  7. Muito bacana o texto, acabei descobrindo esse blog por conta do blogue antigo e também porque sou um viúvo do Dragão na Garagem e sinto muito que ele tenha acabado, de modo que fico muito feliz que vocês mantenham iniciativas como essa que consolam minha perda.

    Você já viu a palestra do Sérgio Felipe de Oliveira sobre a pineal? Ele comete o mesmo tipo de amadorismo filosófico. Estou escrevendo um texto sobre ela atualmente.

  8. Olá homemsemsobrenome, legal que gostou. Eu já vi partes dessa palestra, mas nunca aguentei até o final. Se quiser publicar seu texto aqui no Blog Cético será bem-vindo.

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